Acho que a primeira impressão que se tem ao ler o título desse livro (pelo menos em uma camada mais superficial) é a ideia de sagrado relacionado ao feminino como a mulher pura, casta, canonizada. Dá uma vontadinha de rir lembrando dessa primeira impressão que eu tive ao buscar por esse livro, já que não tem nada a ver com isso, e pra mim ele fala muito mais desta união do profano e do sagrado, e de buscas para encontrar o que é realmente essencial para a nossa existência. Diferentes definições do que é sagrado, já que traz diversas “verdades” para mulheres em jornadas completamente diferentes.

É um livro pra você que gosta de estar entre mulheres, abuelas mais velhas e ouvir suas histórias. Que se encanta ao se reconhecer nestas trajetórias e que também se deixa aquecer o coração por também compartilhar medos e erros com elas.

Esse ano por conta do clube de leituras “Leia Mulheres – Fortaleza” eu comecei a pesquisar/e ler mais mulheres na poesia, ficção, etc. Acabei observando que o nicho de literatura sobre xamanismo, sagrado feminino, espiritualidade etc… na maioria das vezes era pautado por autoras europeias e brancas. E depois de observar isso, comecei uma busca no skoob por autoras nacionais com outras visões que saíssem desse eixo. Queria descobrir mais da realidade brasileira dentro desta vertente. Este livro e o Vasos Sagrados – Mitos indígenas e o encontro com o feminino (espero falar dele aqui em breve) me chamaram muita atenção.

O feminino e o Sagrado – Mulheres na jornada do herói foi escrito por duas brasileiras: Cristina Balieiro (psicóloga) e Beatriz Del Picchia (arquiteta).

A base do livro é sobre a conhecida Jornada do Herói de Joseph Campell. (Lembra dela? Está em livros, histórias, filmes… O Mundo comum, o chamado à aventura, recusa ao chamado, relutância à mudança, encontro com o mentor, superação da relutância, cruzamento do limiar, comprometimento com a mudança, testes, aliados e inimigos, experimentando a primeira mudança… etc etc). Porém, diferente da forma como sempre vemos, elas resolveram estudar mulheres e histórias reais dentro deste contexto. Entrevistaram um grupo de 15 mulheres com vidas e profissões relacionadas em algum nível a espiritualidade. E nos trazem aqui um incrível livro de poder com todas essas passagens de vidas riquíssimas em formato de entrevistas, comentários e ideias que vão se unindo. Histórias que vão remexer nas suas entranhas e com certeza vão te dar uma nova noção de realidade, do que é realmente sagrado a sua existência e sobre o Tempo.

Eu me senti imensamente tocada e nua diante daquelas trajetórias em diversos momentos por me reconhecer dentro de tantas mulheres (e tão diferentes de mim!). É um livro forte e sensível ao mesmo tempo. Me senti como em um círculo de mulheres que transcende o tempo, em volta de uma fogueira e no meio do mato… Escutando, escutando e escutando. E mais uma vez fui relembrada a força que tem compartilhar histórias. E exercitar a presença de também ouvir com o coração.

Ao decorrer do livro vamos descobrir as mais diferentes trajetórias de vida… Mulheres que se redescobriram após a morte de um ente querido, ao viajar pelo mundo na década de 70 sozinha, após lidar com a depressão, ao descobrir não se encaixar com o papel feminino que lhe era imposto, ao ser mãe, e por aí vaí…

Compartilho aqui com vocês trechos que me tocaram muito. E que acredito que podem apresentar um pouquinho mais da essência deste livro do que as minhas palavras. (Como é difícil resenhar livros tão incríveis! E com mensagens tão profundas mas entrelinhas)

 

 

“E, em algum momento bem mais velha, eu reconheci o positivo de não ter espelho. Em todos os espelhos que eu olhava, eu não me reconhecia. Então tive que buscar dentro da minha profundeza, tive que me espelhar em mim mesma. Tem uma solidão muito grande nisso, porque você olha e vê que não tem turma. Mas isso também me faz única, específica. Eu sempre me senti muito menos que qualquer outro. Mas isso não era verdade. Eu leio, eu tiro conclusões, eu penso, as coisas brotam.É uma sabedoria que eu já tenho. Eu passei por vários momentos na minha vida em que tive que reconhecer a minha competência. Eu tive que me reconhecer. Foi um processo de me reconhecer, e foi por etapas. Eu sempre fui sábia. A minha alma é anciã. Retroativamente, fui percebendo: sempre fui ‘uma velha sábia’, só que não tinha a menor consciência disso. Por isso, como sábia, como anciã, foi terrível ser jovem. Era terrível ser jovem, porque eu não sabia o que fazer com aquilo.” (Monika Von Koss)

“Eu fiquei dez anos tentando trabalhar minha vitimidade, não fiquei parada nela. Eu transformei essa dor. Hoje, olho com profundo respeito para a mulher que fui. Que foi covarde, ou que foi frágil, ou que foi vulnerável, ou que foi dependente, não sei, mas tenho um profundo respeito por essa parte minha. Então, eu olho e falo para essa parte minha: “Neiva, eu te amo”. É como se eu precisasse, ou ela precisasse, desse amor. Só que buscava no outro. Até que ela teve de mim esse amor.” (Neiva Bohnenberger)

“Acho que a humanidade tomou dois rumos: uma grande parte foi ignorando esse lado sensível, ao passo que o povo não, o povo o mantém. Acho que essa relação com sensível foi preservada e evoluiu nas zonas rurais. O que noto é que aquelas pessoas não tem carro, não têm casa, não têm esgoto, não têm saneamento, têm a saúde física debilitada, mas têm uma alma e vão buscar acalanto para essa alma. Eu acho que é aí que acontece a relação com o mítico, com o simbólico, com a transcendência. Porque é isso que é capaz de nos tirar da realidade sórdica, cinzenta e feia. Então, você vê essas pessoas muito ignorantes, porque não sabem ler, não sabem escrever, são muito pobres, mas que são extremamente lúcidas. Podem não ter uma referência literária, mas têm uma sabedoria na reflexão sobre a vida, sobre vários temas, que sai da boca delas como de qualquer grande escritor. E essa lucidez não veio da leitura, que vem do que eu chamo de exercício do sensível, que vem dessa relação com o simbólico, com o mítico. E com a convivência o meu olhar foi mudando!” (Rosane Almeida)

Enfim, finalizei este livro com a certeza de que eu deveria compartilhar ele com o máximo de pessoas possíveis. Acredito que capturaram incrivelmente bem a essência e a pluralidade da palavra “Sagrado”. Terminei com aquela vontade de reler novamente e de pesquisar sobre o trabalho de todas as mulheres citadas. Com certeza foi um daqueles livros divisores de águas de ideias e ideais.

As autoras alimentam um site incrível com diversos textos ricos de informações. Clique aqui para conhecer.

Aqui mais uma resenha incrível deste livro, por Thais Prado.

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Deixo aqui a trajetória das mulheres em sua “jornada do herói” e proponho o exercício de vocês escreverem sobre a sua vida dentro dessa ideia. Sintam, reflitam e observem sobre o caminho que você está trilhando. Ficaria muito feliz se compartilhassem comigo nos comentários.

Mundo cotidiano: o ponto de partida, contexto, passado, origem, história pregressa e para onde o herói retorna.

RUPTURA:
 
1. Chamado a aventura: apelo, convocação para o rompimento com o conhecido, crise.
2. Recusa ao chamado: dúvidas, hesitações, relutânica e recusa em aceitar o chamado.
3. Travessia do primeiro limiar: primeira busca ativa de respostas ou soluções para a ruptura que ocorreu devido ao chamado, primeiro momento de ação. 
 
INICIAÇÃO:
 
4. Encontro com o mestre: mestres encontrados no caminho.
5. Aprendizado: etapa de educação e aprendizado, tanto vivencial quanto intelectual.
6. Travessia de novos limiares: comprometimento aindda maior com a mudança, ações e buscas mais radicais.
7. Situação-limite: ponto de inflexão que implica provações e sacrífios ou rendição para poder continuar a jornada.
8. Bliss: encontro do “tesouro de cada um, aquilo que traz sentido e significa à vida.
 
RETORNO:
 
9. Caminho de volta: preparação para viver no “mundo cotidiano” outra vez, mas pessoalmente modificado.
10. Ressignificado: transformação pessoal advinda da jornada e do encontro da bliss.
11. Dádiva para o mundo: o que se traz como doação concreta para o mundo, de acordo com a bliss.
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